Entre dois mundos

A casa dela ficava em outra cidade. Uma cidade construída em cima de uma serra. O caminho era cheio de desfiladeiros perigosos e eu só me perguntava se aquela visita valia tanto a pena assim, correr o risco de o carro derrapar e morrermos todos nós no vale lá embaixo.

Meu pai era um ótimo motorista. Eu costumava achar que ele nascera com as mãos no volante. Mas talvez fosse apenas o conhecimento dele de mecânico que o fazia ser tão firme assim na direção.

Minha mãe estava ansiosa. Ela sempre ficava quando íamos visitar tia Chiquinha. Ela não era nossa tia de verdade, mas era como todo mundo que buscava seus serviços a chamava. Nós sempre íamos lá, pelo menos de dois em dois anos, para que ela nos rezasse e tirasse de nós todo mal olhado ou energia ruim. Era algo que por algum motivo não conseguíamos fazer em casa, mesmo com todas as velas e orações diárias de minha mãe.

Eu nunca me lembrava muito bem das visitas anteriores. Minha mãe geralmente entrava sozinha e meu pai e eu ficávamos do lado de fora, brincando com a baladeira, jogando pedras lá embaixo ou tentando acertar alguma árvore. Depois de quase meia hora lá dentro, minha mãe vinha nos chamar e tia Chiquinha nos surrava com uns galhos verdes enquanto rezava algo baixo demais para entender. Depois disso íamos embora.

Quando estávamos quase chegando eu reconheci as grandes árvores na estrada de barro até a casa. Logo comecei a ver os grandes jardins de ervas e o pomar. Parecia uma vida natural e isolada demais para mim. Aparentemente ela e o marido não trabalhavam com outra coisa além do espiritual, então eles tinham uma vida bem simples.

A casa já era velha, tinha algumas telhas quebradas e a porta era de madeira maciça. Pesada. O marido de tia Chiquinha sempre parecia fazer uma força excessiva para abri-la e vir nos receber. Ele sempre vinha nos receber.

“Eita coisa boa, voltaram”, ele disse sorrindo, apertando sempre a mão da minha mãe antes da do meu pai.

Pela forma como se falavam pareciam grandes amigos, íntimos, e acho que esse era um dos motivos que faziam minha mãe se sentir bem ali.

Logo ela entregou a ele uma cesta básica e mais alguns produtos de higiene da natura que ela vendia. O pagamento pelos serviços de tia Chiquinha era sempre em itens que eles precisavam. E parece que não era nada estipulado, ficava sempre a cargo do “cliente”.

“Tem um bolinho com café na mesa ali do outro lado do alpendre. Dê um pedaço ao menino. Eu vou ajudar Chica a se preparar”.

Ele sumiu dentro de casa e nos sentamos à mesa. O bolo era de milho, muito gostoso. Eu não podia tomar café ainda, mas meu pai sorveu goles ruidosos da bebida quente.

Vinte minutos depois ele voltou, vestindo roupas brancas velhas. Guiou-nos por um caminho lateral entre a casa e o desfiladeiro. Chegamos a um pequeno quarto que ficava escondido do lado da frente da casa. A porta era de madeira fina, a parede apenas rebocada com cimento cru.

Entramos e tia Chiquinha já estava lá, sentada à frente de uma cortina puída, ao lado de uma mesa repleta de imagens de santos empoeiradas e velas derretidas. Várias outras estavam acesas. O cômodo era simples, apenas um quadrado com duas portas, uma que dava para fora e outra que dava para dentro da casa.

Minha mãe se ajoelhou e pediu licença. Olhei para trás em busca de meu pai, mas ele havia ficado lá fora. Era a primeira vez que eu entrava de imediato com minha mãe.

Ela sentou-se na cadeira em frente à tia Chiquinha, que logo começou a bater com força umas folhas verdes que ela molhava em uma bacia com água e algum tipo de perfume.

Minha mãe ficou em silêncio durante o processo que durou dez minutos. Para finalizar, a velha senhora molhou as mãos com alfazema e passou pelos braços e pescoço de minha mãe.

Ela respirava forte e profundamente, como se estivesse segurando muito peso ou fazendo muito esforço. Umas mechas do cabelo lhe cobriam o rosto e seu marido os colocou atrás da orelha. Ele a auxiliava em tudo: quando ela solicitava algo, indicando o que o consulente tinha que fazer, etc.

“Traga o menino”, ela disse com aquela voz profunda, como se vinda do fundo do seu pulmão. Ela estendia o dedo trêmulo para mim. Eu tremi. Parecia-me que algo a mais além das rezas ia acontecer, já que a mulher estava se comportando de uma forma bastante diferente de quando começou o processo com minha mãe.

Seu marido me estendeu a mão e eu fui guiado até a cadeira. No momento em que me sentei ela tremeu um pouco e respirou fundo. O quarto pareceu escurecer. As velas não pareciam ser suficientes para iluminar o cômodo. Eu sentia uma espécie de vibração no ar. Tudo parecia um pouco mais… profundo. As paredes ficaram ainda mais velhas e manchadas. As rachaduras se aprofundaram.

“Não me tira aqui!”, ela gemeu em uma voz infantil e começou a chorar.

“Mas você não pode ficar com o menino”, disse seu marido.

Eu estava assustado. Me sentia esvair, como se meu corpo existisse sobreposto a ele mesmo.

“Por favor eu quero ficar nesse mundo não me leva de volta pros homens maus”, ela disse novamente, soluçando de tanto chorar.

“Que homens maus”, o marido de tia Chiquinha perguntou.

“Os que machucaram meu pai e me machucaram também. A gente ainda tá preso e eles continuam machucando a gente.”

“Mas você não pode ficar aqui, pequeno.”

Tinha Chiquinha chorava alto, agora. Olhei para minha mãe e ela estava sentada em uma cadeira atrás de mim, de olhos fechados e com um terço na mão, aparentemente rezando.

Eu me sentia duplicado, dividido, como uma fotografia em dupla exposição.

“Mas você tem que ir embora menino. Chiquinha vai lhe ajudar”, disse o marido da mulher, que cada vez chorava mais e repetia “não, não, não”.

Ele fechou os olhos e começou a rezar também. Tia Chiquinha começou novamente a respirar fundo e em seu rosto eu pude ver a face de uma criança sofrendo.

Depois de mais algumas arfadas sua cabeça caiu pesada sobre o peito e ela parecia estar dormindo.

O quarto pareceu se iluminar repentinamente, como se uma janela fosse aberta. O homem parecia cansado, mas segurou um vidro de alfazema e aspergiu na mulher, que com um tremor abriu os olhos.

Ela parecia exausta e sem saber ao certo onde estava. Depois de alguns segundos me olhou e sorriu.

“Pronto menino ele já foi”, ela me disse com uma voz leve e serena.

Tia Chiquinha explicou que aquele ser me acompanha há alguns meses. Que ele vivia em um mundo de sofrimento e encontrou em mim uma esperança de fugir de lá. Mas ele não podia ficar. Eu me tornaria mais ele a cada dia que passasse e as consequências não seriam nada boas.

Minha mãe chorava e agradecia a Deus, como se um milagre acontecera.

Meu pai entrou em seguida e foi benzido. Depois todos nós saímos e nos sentamos na mesa lá fora.

A procissão

André e Fernanda estavam conversando na calçada há pelo menos cinco horas. Como os pais do garoto não gostavam que ele levasse amigos para casa, eles sempre se encontravam na casa dela e costumavam passar horas conversando nos fins de semana, quando não tinham aula.

Era junho e as noites já estavam bem frias, o que significava 18º graus, que é bem frio para uma cidade no sertão do Rio Grande do Norte, onde as noites costumavam marcar 26 ou 27º. Eles estavam com casacos finos e calças jeans, que era o mais próximo de roupa de frio que tinham.

Evitavam tomar bebidas alcoólicas na presença de familiares, apesar de todos saberem que eles costumavam beber, e muito. Naquela noite já estavam terminando a segunda garrafa de dois litros de refrigerante. O açúcar fazia bem o seu trabalho e eles experimentavam uma espécie de euforia que embotava seus sentidos.

No início da noite, trinta minutos depois de se sentarem ali, o ex-namorado de André havia passado na moto da tia, bem devagar, olhando os dois. Havia uma espécie de jogo entre eles, do qual André era apenas a vítima. Cláudio o mantinha longe, mas não tanto, o suficiente para tê-lo sempre que achasse conveniente. Era surpreendente que fosse tão astuto com apenas 16 anos de idade.

A casa de Fernanda ficava na rua da igreja, uma ladeira pequena, margeada por casas antigas das famílias mais antigas da cidade. Em frente ficava a casa paroquial, com toda sua atmosfera de lugar comum e sacro ao mesmo tempo. Um pouco abaixo na rua as lojas modernas começavam a tomar conta de tudo, então a casa de Fernanda e a casa paroquial eram o limite daquele pequeno pedaço da cidade que ainda parecia preso no tempo.

Eles ainda falavam do ex-namorado de André e do garoto com quem Fernanda ficava. Os dois eram incrivelmente hábeis na arte de seduzir e manipular, então os garotos na calçada tinham bastante assunto para conversar.

Fernanda começou a sentir o vento um pouco mais frio, o que não era incomum, já que as serras traziam o ar fresco da barragem há três quilômetros de distância, como se fosse uma cânula natural.

André, que estava virado para o lado da igreja, viu que as luzes dos postes começaram a ficar levemente embaçadas. “Olha ali, parece névoa”. “Minha mãe disse que é comum ter névoa a essa hora nesta época do ano”, Fernanda respondeu.

Mas era muito densa e descia rápido a ladeira da rua da igreja.

De forma repentina, a mãe de Fernanda surgiu de dentro de casa. Olhou assustada para a névoa e arrebatou os dois garotos pelo braço para dentro de casa. Fechou a porta, passou a chave. Colocou um pano de chão na fresta inferior, como para evitar que qualquer coisa entrasse. Correu e apagou todas as luzes; depois assoprou todas as velas do altar e sumiu na parte de trás da casa.

André e Fernanda se entreolharam antes de ir espiar pela fechadura da janela do quarto dela o que estava acontecendo lá fora.

A névoa já estava quase em frente a casa paroquial e de dentro dela era possível ver luzes pequenas, como chamas de vela. Segurando as velas parecia haver vultos, pessoas incorpóreas vestidas com um longo manto branco e sujo. À frente, um homem com uma túnica cinza segurava um estandarte puído. Seu rosto era uma caveira.

André e Fernanda paralisaram, sem conseguir ao menos piscar os olhos. Estavam quase hipnotizados enquanto percebiam que as pessoas da procissão olhavam de um lado para outro, como à procura de alguma coisa.

A mãe de Fernanda reapareceu, puxou-os novamente pelo braço e levou-os para a cozinha, que ficava num anexo recém-construído da casa, nos fundos. Empurrou os meninos para um quarto que parecia ser uma despensa e pediu para que não saíssem dali.

Eles esperaram por meia hora, mas a mãe de Fernanda não voltou. Decidiram sair e olhar a rua novamente, mas não havia nada. Eles ficaram em pé, olhando de uma ponta a outra da rua quando ouviram o relógio da igreja bater quatro horas.

Logo em seguida Cláudio apareceu na moto e disse que levaria André para casa.

Se despediram de Fernanda, que não voltou a ver sua mãe novamente.

Dica de séries: bruxas

Eu sou OBCECADO por bruxas. Leio, assisto e, inclusive, estudo sobre sistemas de magia desde os meus 14 anos. Eu não sei exatamente o que me chama atenção na temática. Talvez a possibilidade do ocultismo, o poder de manipular a realidade ao seu redor e invocar os elementos ou outras forças para conseguir o que se quer. Além do dogma em si, falando mais especificamente dos sistemas mágicos e as bases religiosas.

Separei a indicação das minhas três séries de bruxas favoritas. Depois ainda vou dar algumas menções honrosas.

Antes de começar, preciso dizer que não sou nenhum pouco criterioso com séries. Aceito desde aquelas que vão explodir minha mente até aquelas que vão apenas me distrair, com um entretenimento bem pouco profundo, me dando apenas alguns minutos de descanso.

A lista é composta pelas minhas favoritas e é crescente.

3. Charmed – Nova Geração (The CW – 2018 – Disponível no Brasil na Globo Play)

Essa é um remake da série dos anos 90. Eu não vi a original, mas depois de ver a nova geração fiquei interessado.

A história é a mesma: duas irmãs descobrem que são bruxas quando sua mãe morre e ao mesmo tempo uma terceira irmã aparece. Juntas, elas são as Encantadas (the charmed ones), um grupo de irmãs que surge de tempos em tempos quando alguma ameaça ao mundo mágico se aproxima. A bruxaria em si é uma mistura de alquimia, magia natural e hermetismo.

As bruxas são o centro da série, mas outras criaturas mágicas aparecem.

A série não é nada complexa. Segue o esquema “monstro da semana”, como em The X-files e Supernatural. Mas os conflitos pessoais e o desenvolvimento das personagens faz a série valer a pena.

Ponto muito positivo: duas das irmãs são latinas e uma é negra, além de uma delas ser lésbica. Isso torna toda a história muito interessante por fugir dos clichês comuns a séries do tipo.

2. O mundo sombrio de Sabrina (Chilling adventures of Sabrina – 2018 – Netflix)

Reimaginando o mundo de Sabrina Spellman o mais próximo possível das comic books. Essa adaptação não lembra EM NADA a série dos anos noventa.

Mas a estrutura familiar é a mesma: Sabrina e suas tias. Mas contamos com uma adição (e uma ótima adição) do primo Ambrose. Salem, o gato, está mais próximo de um familiar de bruxa de fato, como se encontra na literatura clássica.

A bruxaria aqui é puramente satânica (ou herética, se preferir esse termo). Ela se baseia no oposto do catolicismo, adorando a Lúcifer. Mas ao longo da série as bruxas trocam de fonte de poder e adoração. Há também uma mistura de magia natural e arcana.

A série tem uma trama muito interessante, ótimos fan-services (sim, eu sou fã e quero ser servido) e boas reviravoltas. O casting é perfeito, os atores claramente amavam seus personagens se empenhavam muito no trabalho.

Qualquer coisa a mais que eu falar aqui vai ser spoiler, então essa vai terminar por aqui.

1. Salem (WGN America – 2014 – Não disponível no Brasil, infelizmente).

Essa daqui é a melhor de todas as mídias de bruxas que eu já consumi em minha vida.

Como o nome diz, ela reimagina a história das bruxas de Salem, mas, nesse caso, nenhuma dela é uma vítima. Os julgamentos sequer chegam a alguma conclusão, tudo graças às tramas intrincadas que cada uma delas consegue manipular.

Magia, política, temas sociais, essa série tem de tudo.

A magia aqui é aquela clássica “bruxa da floresta”, mas com umas boas pitadas de magia herética e natural.

A abertura, cantada por Marylin Mason, não deixa nenhuma dúvida do que você vai assistir. Diferente de todas as outras que eu vou indicar, em vários episódios o telespectador vai sentir medo.

As ruas sujas de Salem, a hipocrisia dos puritanos, a malícia de algumas bruxas e a inocência de outras, o desespero por culpar alguém; não há nada fora do lugar aqui.

Essa é a super indicação aqui.

Em tempo, a série não se propõe ser historicamente acurada. Ela apenas usa da premissa dos julgamentos de Salem para criar uma história maravilhosa.

Menções honrosas:

The Magicians

American Horror Story – Coven (Season 4)

Fake News e a obliteração da realidade

Em 1981, Baudrillard lançou Simulacros e Simulação. Neste livro, ele sustenta a tese de que nenhuma percepção da realidade atinge o cerne do que, de fato, é real. Cada um de nós infunde sua vivência nessa percepção. Logo, a realidade é moldada pelas especificidades de cada um, somadas e aceitas como verdade consensual.

Dessa forma, qualquer percepção de realidade é um simulacro, no sentido de ser uma cópia, uma representação, imitação, etc. Mas, de alguma forma, ainda era possível entender a que esse simulacro estava ligado. A simulação, entretanto, é o processo pelo qual o simulacro é construído. Um ótimo exemplo é uma simulação de voo, por meio de um videogame acessado por um óculos VR. Todo o processo para construir a experiência é a simulação; já a experiência em si é o simulacro da realidade de um voo real.

Mas nem todo simulacro e simulação são tão específicos. Qualquer experiência no nosso mundo ultramidiático e tecnológico é uma simulação. As redes sociais; as séries de televisão; os reality shows. Não vivemos sequer uma experiência que seja de fato real. Todas são simulações e simulacros.

A natureza dos simulacros permite, ainda, que eles sejam transformados em novos simulacros. Cada vez que esse processo acontece, ficamos ainda mais distantes do que poderia ser a realidade. Em algum momento, essa sucessão fez perder completamente os rastros que nos levariam ao lugar primordial de onde ela surgiu (sim, “fez” porque já chegamos em um ponto em que o único referencial de realidade já é um simulacro; apenas reproduzimos infinitamente esse processo). Mas as fake News, entretanto, obliteraram completamente a realidade primária de onde os simulacros derivam (e, até mesmo, o simulacro que tomou esse lugar).

A possibilidade do real está associada à ideia de verdade. E a verdade precisa ser consensual para ser considerada verdade: ela precisa ser reconhecida, validada pela ciência, divulgada e aceita pela maior parte das pessoas. Quando as fake News surgiram, derivadas das teorias da conspiração, elas afastaram ainda mais a possibilidade de uma realidade referencial (à qual nós poderíamos associar o simulacro de real em que vivemos) e, ainda, obliterou a verdade consensual. A ciência permanece validando os fatos, eles permanecem sendo divulgados, mas já não são mais aceitos pela maior parte da população.

As fake News aceleraram o processo de simulação. Em cima da simulação de real que já aceitamos como simulacro da realidade e que já era a única possibilidade referencial, as notícias falsas disseminadas em massa criam simulacros individuais, adotados por grupos específicos na sociedade. Logo, não há apenas um simulacro aceito como verdade e realidade referencial, aquele a qual podemos nos reportar para entender o mundo. Há uma profusão incontável de simulacros, recriados, readaptados e submetidos a um novo processo de simulação de maneira tão rápida e frenética, que não é possível, de forma racional, entender em que realidade vivemos. A ciência, por sua natureza investigatória e utilizando do método científico para chegar a seus resultados, não consegue acompanhar o ritmo dessas simulações. Da mesma forma, a mídia, o jornalismo e os cientistas sociais não conseguem ter tempo de acompanhar esse processo.

As fake News, por sua natureza endêmica, vencem com facilidade a batalha pelo domínio de construir o simulacro (ou simulacros). Elas obliteram, mais uma vez, a verdade e a realidade. Vivemos em bolhas: aqueles que lutam com todas as forças para vencer o domínio das teorias da conspiração, contra aqueles que vivem presos na sucessão de simulacros. Isso se torna infinitamente mais difícil quando nosso principal governante é um negacionista e alimenta essas simulações. Em vários casos ele tentou negar afirmações que fizera, como se elas sequer existissem e como se não existissem provas. Para ele, a nova realidade é manipulada porque ele tem o poder para isso.

Vivemos dentro do Ministério da Verdade de “1984”, de George Orwell.

A primeira vez que morri

Eu não percebi. Foi como piscar os olhos, muito rápido. Mas as pessoas ao redor do lugar do acidente perceberam. Ao que parece, ao virar uma esquina de um cruzamento movimentado, um carro bateu na minha bicicleta e eu fui arremessado metros à frente, indo parar bem embaixo de um ônibus.

Eu devo ter quebrado o pescoço e, com sorte, só mais algumas costelas. Mas eu morri na hora, obviamente. Não consegui nem ouvir o barulho do acidente nem os gritos de quem estava próximo.

Quando abri os olhos, aí sim ouvi os gritos. Algumas horas se passaram. Eu pude estimar pela cor do céu, que já estava alaranjado no fim. Logo quando abri os olhos ouvi os gritos. As pessoas corriam, vários carros estavam parados devido o acidente. Meu corpo inteiro ardia e eu vi chamas se extinguirem entre meus dedos.

Essa foi a primeira vez, mas morri várias outras. Depois do que aconteceu, quando as pessoas me viram reviver, eu fui preso e estudado, óbvio. Como coisas que só acontecem em ficção científica. Então eu morri mais algumas vezes.

Setenta e quatro vezes, para ser mais preciso. Eles me matavam de forma rápida, já que depois da segunda e terceira vezes perceberam que, sim, eu sentia dor.

Cada uma das vezes em que renasci eu percebi que as chamas das quais eu emergia se condessavam em meus ossos. Eles não perceberam isso, eu acho. Ou talvez não fosse de seu interesse.

Mas quando morri pela septuagésima quinta vez, eu consegui não voltar. Permaneci em cinzas. Depois de alguns minutos, quando entraram na câmara com roupas especiais, eu me tornei chamas e consegui escapar do complexo. Senti como se voasse, espalhando calor por onde passava.

Quando cheguei no meio da cidade, explodi no asfalto como uma bola de fogo. Pessoas corriam para todos os lados, carros batiam.

No meio da avenida eu abri os braços como asas e rugi, incendiando tudo ao meu redor.

A última sessão

Aninha trabalhava na bilheteria do luxuoso cinema há apenas três meses, mas de longe aquele era o melhor período de tempo que havia vivido desde que se entendia por gente. Olhava pessoas, falava com pessoas e podia viver as pessoas, era como ela pensava. Muito diferente de como era acordar às quatro da manhã para lavrar o chão no sítio da família. Trabalhando no cinema, ela ia dormir às quatro da manhã. E para ela isso era tudo.

A cidade pequena vivia basicamente de agricultura, então quando contou aos pais que não queria mais trabalhar na terra, aquilo foi uma punhalada quase fatal. O pai ainda a tratava com muita reserva e a mãe só voltou a sorrir para ela faz duas semanas. Mas era o que Aninha queria. Ver os jovens, como ela, se empanturrando de pipoca e Coca-Cola. Não sentia vontade de estar no lugar deles: do outro lado do balcão. Achava que se podia aproveitar todo aquele jorro de energia vital e ainda conseguir dinheiro com isso, era isso que devia fazer. Então, não: não invejava. Estava onde devia estar.

Às vezes saia correndo da bilheteria até a lanchonete para vender a pipoca, encher os copos com refrigerante e separar os chocolates. Depois voltava correndo até a bilheteria. Fazia isso porque gostava. O patrão não reclamava. Era como ter dois funcionários pelo preço de um. E mesmo que os clientes reclamassem que às vezes tinham que esperar alguns minutos enquanto Aninha estava atendendo em outro lugar, ele não se importava. Era lucro, de alguma forma. E a reclamação de um ou outro cliente não faria mal. Aninha era boa no que fazia. E nem ocupava o lugar que tinha direito na última sessão noturna, cortesia do trabalho. Nem comia a pipoca e nem tomava a Coca-Cola. É, não tinha do que reclamar.

Quando o último cliente comprava o último saco de pipoca, Aninha começava a varrer a entrada do cinema. A rua já estava deserta, ela era a única por ali. Todos os outros ou estavam em casa dormindo se preparando para o trabalho no outro dia, ou estavam no cinema, ou estavam nas ruas escuras se agarrando. Ela ficava feliz de estar ali.

Apesar de a cidade ser pequena, nenhum dos frequentadores do cinema a conhecia. Estudara com alguns, mas seus pais preferiram, depois do primeiro ano escolar, mantê-la na pequena escola rural junto com os filhos dos outros agricultores. Então nem se lembrava de ninguém. Talvez um nome. Mas um nome é só um nome se não vem acompanhado de um rosto ou uma história.

Aninha fazia o mesmo horário sempre, exceto no sétimo dia corrido de trabalho, quando tinha folga. Nesses dias ficava em casa, ajudava a mãe com algumas tarefas domésticas, dava dinheiro ao pai para comprar algo mais além do que aquilo que a terra era capaz de produzir. Mas em geral, ficava na cama, ouvindo o barulho dos irmãos, sentindo o cheiro da sopa ou do queijo fresco feitos pela mãe. Não ouvia música. Não lia livros. Nem saia de casa para ir ao cinema ou à cidade. Apenas esperava que aquele dia acabasse e ela pudesse voltar a trabalhar no dia seguinte.

Entrava no trabalho sempre às quatro da tarde, a tempo suficiente para vender os bilhetes e os lanches para a sessão das cinco horas. Varria a entrada, olhava o sol se pondo, sentia o resto do calor indo embora no meio da cidade e o frio chegar cortante.

Recebia a todos sempre com um sorriso e mesmo que ficasse muito atarefada indo de um balcão para outro, não se pode negar que Aninha gostava daquele trabalho.

Passara anos ali a ponto de ser conhecida como a mulher do cinema. Já tinha quase trinta anos e nunca tivera um namorado ou vivera qualquer outra coisa que não seu trabalho. Estava satisfeita e era tudo de que precisava. Todos os seus irmãos já tinham saído de casa e agora ela morava sozinha com os pais, já velhos, vivendo apenas do dinheiro que Aninha ganhava no trabalho. Pararam de reclamar alguns anos atrás, quando perceberam que não poderiam viver do sítio para sempre, afinal de contas estavam velhos e os outros filhos tinham ido embora.

Só ela ficou. Como era também só ela ficava depois da última sessão para limpar, fechar e aprontar tudo para o rapaz que cuidava do cinema nas primeiras sessões do dia.

O cinema já não tinha mais a mesma clientela. A televisão roubou grande parte dos jovens enamorados que pagavam uma mixaria para poderem namorar no escuro sem prestar atenção no filme. Numa cidade pequena como aquela, um negócio como um cinema não se sustentaria mais por muito tempo se alguma coisa não mudasse. E não mudou.

O proprietário reuniu a pequena para anunciar que infelizmente fecharia as portas. Para Aninha essa notícia era péssima. Na verdade, era mais que isso. Dedicara sua vida inteira àquele trabalho e agora não teria nada mais. Os pais dependiam dela e ela dependia daquele cinema. O dono marcou a última sessão para dali a três dias. Então tudo acabaria.

A notícia avassalou a cidade. A prefeitura não se importou. Saudosistas se juntavam na calçada para falar como era bom aquele tempo em que iam ao cinema comer pipoca com Coca-Cola e se apalpar por baixo dos jeans apertados sem que ninguém visse ou fingisse que não via. Mas no dia em que tudo acabaria, a notícia já era velha e ninguém de fato se importou. A não ser Aninha.

Para a última sessão fez o cabelo e as unhas, usou uma maquiagem discreta, estava com o uniforme impecável. De alguma forma, queria dar a impressão (para ela mesma) que nada mudaria. Então sorriu bastante para todos os dez clientes que compraram os ingressos. Vendeu apenas uma pipoca e um refrigerante e nenhum chocolate.

Quando acabou ela limpou tudo, conferiu o dinheiro no caixa, deixou na sala da administração junto com o uniforme e o crachá e saiu andando pela rua de cabeça baixa. Como sempre não havia ninguém. Aninha olhou para cima e viu a grande lua que iluminava as ruas escuras da cidade. Decidiu pegar um atalho que encurtava a parte do caminho que tinha que percorrer dentro da cidade e que a levava até a estrada de barro que ligava a cidade à zona rural.

Ali Aninha desapareceu.

Os pais foram, no outro dia, até a casa do dono do finado cinema pedir por informações dizendo que a filha nunca chegou em casa. O dono falou que Aninha saiu do prédio logo depois de fecharem e pareceu fazer o caminho normal para casa, mas que ninguém a havia acompanhado, como sempre.

A polícia procurou por uma semana. Aninha foi notícia na cidade por quatro dias e depois disso passou a ser conhecida apenas como aquela moça do cinema que desapareceu e ninguém nunca mais achou.

O tempo que dá

Eu não sei você, mas para mim é difícil intercalar os tempos da minha vida. O trabalho, a casa, o relacionamento, a família e eu mesmo. Enquanto crescia eu nunca parei para pensar que precisaria ser, às vezes, várias pessoas ao mesmo tempo, cada uma se dedicando a algo diferente em um tempo diferente. Mas não precisa ser outras pessoas, pode ser você mesmo, né? Eu também não aprendi a ser muitos em mim mesmo. Eu só consigo ser um de cada vez.

E no meio disso tudo, existem coisas que vão sendo relegadas ao “tempo que dá”. Todo mundo tem alguma coisa, alguma tarefa, algum hobbie, algum vício, aos quais só se dedica quando dá tempo. No meio de tudo que você precisa ser, quando tudo já está alocado nas 24 horas do dia, nos 7 dias da semana, se sobrar tempo, você dedica a aquele algo.

Comigo, são duas coisas: minha escrita e meus estudos. Terminei meu mestrado em 2015 e desde então eu não “consigo” tempo para continuar estudando e fazendo minhas pesquisas. Às vezes eu nem estou ocupado. Mas minha cabeça está tão abarrotada de tudo o mais, que eu preciso roubar o tempo que seria dedicado aos meus estudos para conseguir organizar a mim mesmo dentro do turbilhão que é a vida. Eu poderia ter continuado, ido direto para o doutorado, mas a vida às vezes não respeita nossos planos e eu precisei postergar tudo que eu tinha planejado para poder tratar minha depressão.

Outra coisa para a qual eu raramente tenho tempo é a escrita. Escrevo desde os 15 anos de idade e nos primeiros dois anos eu escrevi quase 2000 textos, entre poemas, prosa poética e contos. Claro que disso tudo eu nunca consegui aproveitar mais que 5%; mas a escrita precisa de prática e escrever tanto logo no começo me ajudou a melhorar em vários fatores. Depois disso entrei na faculdade e passei a escrever também textos acadêmicos. Nessa época eu percebi como ter escrito aqueles 2000 textos me ajudou. Escrita demanda tempo e prática. Depois do mestrado eu nunca mais consegui manejar tempo para me dedicar tão profundamente à escrita, pelo mesmo motivo que não consegui com os estudos.

E aí vem o tempo. Durante os dois primeiros anos da minha crise depressiva eu briguei com ele. Ele abundava, mas eu não podia fazer nada. Estava preso nele, ao mesmo tempo em que não dispunha de nem um pouco. À medida que meu tratamento avançou eu pude reescalar a vida nos intervalos. E aí o tempo começou a faltar. Havia o tempo do trabalho, o tempo da terapia e da minha cura, o tempo do meu relacionamento, da minha religião, da minha família. Ocasionalmente eu encontrava um pouco para os estudos e a escrita, mas nunca é constante. E aí você começar a viver a intervalos. Entre um tempo e outro você tenta encaixar alguma coisa, ou simplesmente aproveita o grande nada que a procrastinação genuína proporciona.

Em um mundo hiper conectado, fica cada vez mais difícil manejar o tempo. Vivemos entretempos. Vivemos no tempo que dá.

quando o sol virou

o sol mudou de lugar. agora ele nasce de cabeça para baixo. não faz muito tempo e as coisas começaram a mudar. primeiro havia noite. eterna. e quando o corpo já havia começado a mudar o sol voltou. de cabeça para baixo. ele rotacionava um vácuo sugando muita terra e carne. controlando um redemoinho radioativo. que foi quando todos nós renascemos sem rosto nos casulos de carn queimada em que se transformou o corpo.

Filhas

I have lost my children
I have lost my love
I just sit in silence
Let the pictures soak
Out of televisions

Daughter – Doing The Right Thing

            Minha segunda filha tinha acabado de se mudar de casa depois do casamento. Eu estava sozinha, em frente a televisão, assistindo qualquer programa que pudesse servir como pano de fundo para um silêncio que eu queria instaurar dentro de mim mesma.

            Foi quando eu senti algo no meu ventre se expandir. Coloquei a mão no lugar e senti-o levemente quente. Mas não doía. Não tinha nada. Então esqueci.

Amanda tinha acabado de ter seu primeiro filho e chorava desconsoladamente por minha esposa não estar mais viva para ver sua primeira neta. Eu a consolava, tentava mostrar a beleza daquele momento para ela.

            Então senti de novo a expansão no meu ventre. Ficou um pouco mais quente e eu dei um suspiro alto.

– O que foi, mamãe? – Amanda perguntou.

– Nada. Só uma fisgada no abdômen, mas não é nada. Senti outra vez já, mas não deve ser nada.

            Mas ela não se contentou. Insistiu até que eu procurasse um médico. Ele me recomendou um oncologista e isso deixou minhas filhas apavoradas. Me encheram de cuidados e preocupações, mas eu não pensava que pudesse ser nada demais. Apenas me divertia com a situação.

            O oncologista não encontrou nada, mas ao longo dos meses a região foi ficando mais quente até que a pele se rasgou e de dentro de mim saiu uma estrela.

            Ela rodopiou pela sala, indo de mim até minha filha que olhava pasma para aquilo. Depois a estrela diminuiu de tamanho e voltou a crescer. Então atravessou o telhado e foi embora.

Eu estava internada já há 50 anos. Até então apenas três estrelas saíram da minha pele. Mas alguma coisa muito grande estava se formando no meu antebraço direito.

            Minha segunda filha, Elena, tinha acabado de falecer. Assim como sua irmã, de câncer. No início pensei que elas pudessem ter o mesmo problema que eu, mas não aconteceu. Eu não envelheci um dia sequer desde o dia que a primeira estrela rompeu.

            Agora eu já não era assistida apenas por médicos, mas também por cientistas, físicos, astrofísicos, biólogos e especialistas no espaço. Eles esperavam ansiosamente para que eu produzisse mais uma estrela e eles pudessem estudá-la. Mas eu não conhecia o padrão. Não sabia exatamente o que fazia com que elas se formassem e nem eles sabiam.

            A notícia da morte de Elena me pegou em cheio. Mas desde que Amanda se fora eu estava me preparando para aquilo. Eu sabia que eu restaria aqui, enquanto elas seguiriam seu curso normal.

            Eu tomava banhos de sol. Eles me diziam que era para manter meu corpo saudável, mas eu sabia que eles estavam tentando acelerar a produção das estrelas. Em cinquenta anos apenas três nasceram. E dessas três eles puderam observar apenas uma e por nada mais que o tempo suficiente para determinar que era uma estrela de fato. Logo ela subiu também.

Mais 70 anos se passaram e eu produzi mais duas estrelas na barriga e o que quer que estivesse se formando no meu braço direito crescia devagar, mas crescia.

            Eu passei a considerar as estrelas como minhas filhas. Minha família. Eu já não fazia a menor ideia do que acontecia de fato do lado de fora dos laboratórios. Eu tinha uma televisão, mas a televisão não é real.

Um dia a pele do meu braço direito começou a romper. Eu alertei os cientistas. Aquilo era maior que qualquer estrela que eu tivesse produzido. Da pele se rasgando não saia sangue. Uma poeira parecida com gelo triturado se derramava no chão. No começo os cientistas estavam muito perto de mim, mas quando aquilo começou a crescer ainda mais eles se afastaram e ficaram em segurança, me deixando sozinha.

            Aquilo foi crescendo e tomando conta do quarto, do laboratório, da instalação, da cidade, do estado… ela não parava de crescer. E quando finalmente terminou de romper minha pele eu percebi que uma galáxia inteira tinha saído de dentro de mim.

Daqui posso ver o mar

            Eu acordei e não vi meu quarto. Eu via um escritório, amplo, com janelas de vidro enormes. Eu estava olhando para um computador com uma planilha aberta. Na mesa vários relatórios impressos, um cacto pequeno, um fone de ouvido e uma caneca grande de café pela metade.

            Tateei ao redor e não vi minhas mãos se mexerem. Derrubei o abajur que ficava na mesa de cabeceira, o livro, o copo com água. Eu estava movendo as mãos, mas não as vias se mexendo. Eu não estava naquele ambiente que via. Estava no meu quarto, mas meus olhos estavam em outro lugar.

            Me levantei na hora que um homem se aproximou da mesa. Vi seu rosto, bonito. A barba bem feita, vestia uma camisa social, mas com as mangas enroladas até os cotovelos. Sorria e falava algo que eu não conseguia ouvir. Não consegui ler seus lábios. De repente estava olhando para o chão e vi uma mão tirar os sapatos femininos dos meus pés. As unhas eram longas e estavam bem feitas, pintadas com um esmalte nude bastante discreto.

            Tentei me mover pelo quarto e, apesar de sentir que estava andando, aquilo que eu via não se alterava. Eu permanecia vendo como se estivesse sentado naquele escritório produzindo os dados daquela planilha.

            Como eu não via meu quarto, acabei batendo minha cabeça na prateleira de livros ao lado da porta e desmaiei.

            Quando acordei estava no meu quarto novamente. De certa forma, nunca tinha saído do meu quarto, mas meus olhos estavam em outro lugar. Mas não sei se era verdade. Bati a cabeça e isso embaralhou tudo. Possivelmente tinha sido uma alucinação em decorrência da pancada, mas me parecia ter acontecido antes de bater a cabeça.

            Saí do quarto e fui preparar um café forte. Preparei também alguns pães na chapa para acompanhar e isso era meu café da manhã. Peguei o celular e chequei os e-mails, mas não tinha recebido nenhuma resposta dos e-mails que enviara na semana anterior.

            Estava desempregado há quatro meses e o seguro-desemprego terminaria em breve. O mercado de trabalho estava estagnado e eu não conseguia nada. A única coisa que podia fazer era continuar enviando e-mails para empresas que nem sequer tinham vagas abertas, na esperança que meu currículo bem recheado me conseguisse uma entrevista.

            Peguei o cesto de roupa suja e fui para área de serviço colocá-las na máquina de lavar. Depois que iniciei a lavagem, fiquei vendo as roupas rodando na água com sabão, lentamente soltando a sujeira que tingia a água de outras cores. Algumas das roupas provavelmente desbotariam e eu devia ter pensado nisso, mas já era tarde.

            Voltei para a cozinha e fechei os olhos, tapando-os com as palmas das mãos, como se estivesse cansado. Eu não estava cansado, pelo menos não fisicamente.

            Quando abri os olhos eles não eram meus novamente. Estava vendo mais uma vez a mesa de escritório, agora sendo arrumada pelas mesmas mãos que vi tirarem os sapatos dos pés. O computador estava sendo desligado e quando a tela ficou preta eu pude ter o vislumbre de um rosto. Redondo, de pele escura, com olhos grandes e bonitos. Cabelo crespo e arrumado em um coque. Na orelha brincos de argolas médias, nada muito estravagante. Mas não consegui guardar a fisionomia. Peguei detalhes e eles não se juntavam em uma imagem clara de quem estava com meus olhos.

            Era uma mulher, agora eu sabia. Ela estava saindo do trabalho. Várias pessoas passavam pelo seu campo de visão. Ela andou poucos metros na rua e desceu as escadas de uma estação de metrô. Não consegui identificar qual. Os nomes estavam borrados. Não era possível focar. Além do mais, ela passava tempo demais olhando para o mesmo lugar, com a visão desfocada, como se estivesse pensando. Olhou o relógio. Seis e meia da noite. Se pelo menos ela pegasse o celular, talvez eu conseguisse ver alguma coisa. Ela pegou o metrô e adormeceu. Eu fiquei no escuro.

Ao passar dos dias eu me acostumei a não enxergar com meus olhos. Via com os dela. E acabei desenvolvendo uma afeição por aquela mulher. Mas ela passava tempo demais no trabalho. Tudo que eu via era a tela do computador. E como não ouvia nada, ainda não sabia seu nome, nem onde morava, nada. Mas descobri por que eu não conseguia enxergar direito. Ela tinha problemas para ver. Mas parece que não tinha interesse em usar óculos.

            Ao longo desses dias eu descobri que ela tinha uma namorada. E em momentos de intimidade eu sempre fechava os olhos. Quando fechava os olhos eu não via. Ela não parecia saber que eu via por seus olhos, mas eu escolhia manter sua privacidade sempre que fosse necessário.

            Contei a alguns amigos. Alguns deles achavam que, além de ter ficado cego (já que era óbvio que eu não conseguia enxergar nada que estava ao meu redor) eu também tinha enlouquecido. Mas um amigo acreditou em mim. E ele sempre me perguntava o que eu estava vendo. Ele me ajudava nas tarefas práticas e praticamente se mudou para morar comigo.

            Um dia, um domingo, enquanto almoçávamos, ele percebeu que eu estava quieto demais, prestando atenção no que ela estava vendo.

– O que você está vendo? – ele me perguntou.

– O mar. Daqui eu consigo ver o mar.

            Elas estavam sentadas na areia de uma praia pouco movimentada. A namorada pegou a mão dela e eu a vi depositar uma caixa pequena em sua mão. Ela a abriu e dentro havia um anel de noivado. Eu me levantei abruptamente da cadeira.

– O que houve? – perguntou meu amigo.

– Elas vão se casar! – eu respondi.

            E nós dois ficamos felizes como se fosse um de nós.

Elas já estavam nos preparativos do casamento há algumas semanas. Pelo visto não seria nada estravagante. A essa altura eu já tinha desistido de tentar descobrir quem elas eram. Estava feliz por elas. Mas eu sentia que precisava explicar aquilo tudo. Era a vida delas que eu via quase o tempo todo em que estava com os olhos abertos.

            Ela estava em um carro, um uber, possivelmente. Indo a algum lugar. Quando de repente uma pancada no mundo dela fez com que eu não enxergasse mais nada. Passei horas no escuro completo. Não sabia o que tinha acontecido, mas devia ter sido um acidente. Estava nervoso, queria que ela estivesse bem. Depois de dois dias voltei a enxergar e vi a noiva dela chorando.

            Ela falava alguma coisa. Agora eu consegui entender o que era. Ela dizia que ia ficar tudo bem. Mas o escuro voltava sempre. Ela abria os olhos por algumas horas e fechava por quase um dia inteiro. Sua noiva sempre chorava.

            Um dia, ela abriu os olhos e eu quase não consegui enxergar nada. Vi sua noiva correndo, uma enfermeira chegando e saindo. Um médico. Vários enfermeiros a levantando e colocando em uma maca. De vez em quando eu não via nada. Percebi que ela estava em operação. Ela estava morrendo. Eu estava sozinho em casa e comecei a chorar. Ela estava morrendo. De repente ficou tudo escuro.

            Tudo escuro e eu nunca mais vi nada.